segunda-feira, 1 de novembro de 2010

um pouco de história...

Jornal A VOZ, aqui Correia Marques deixou a sua marca, única, exclusiva e verdadeira. Foi redator principal, quando este jornal substituiu A Época em 1927 (Correia Marques entrara para a redação deste jornal em 1919). Em A Voz, Correia Marques evidencia-se em assuntos como política internacional e crítica literária - cria no jornal a seção "Bazar das Ciências, das Letras e das Artes"; dedica-se à literatura infantil e cria, apenso a A Voz, o semanário Tiroliro.
Correia Marques foi diretor de A Voz de 1947 até à sua extinção em 1971.

Temos aqui, da esquerda para a direita: A mulher de Bento que era irmão de Pedro Correia Marques, o próprio Bento e o pai de Pedro Correia Marques, Joaquim Marques... data? meu Deus... há muito, muito tempo....

terça-feira, 20 de julho de 2010

SEQUÊNCIA AOS TEXTOS DE CORREIA MARQUES (Curso de Jornalismo: 1941-1943)

C U R S O D E J O R N A L I S M O

Reportagem Continuada



Dei-me afanosamente a procurar maneira de ganhar a vida, a tal reportagem a que me referi na crónica passada. Desci do castelo de S. Jorge para a tarefa de arranjar num mundo, cada vez menos conhecido (do tempo passado em Lisboa o mais dele fora o lapso de onze meses e dezassete dias de prisão), o meio de angariar o pão de cada dia.

Encontrei-me em pleno Rossio, então ainda com a placa de calcáreo branco, ondulada de basalto negro, que servia de pretexto para os literataços da Estranja dizerem ser preciso ter le pied marin para o atravessar sem acessos de mal de mer. Todos os meus haveres eram o cotim da farda, um saco de chita com roupa e 5 centavos.

- Meu caro Pedro; há que sair deste passo com os cabedais que possuis … - monologuei.

Comprei o «Diário de Notícias», afim de procurar, primeiro que tudo, um quarto onde acoitar a carcassa. E tinha que ser mobilado.

O mais barato que encontrei foi um na Travessa dos Fiéis de Deus. Custava (O tempora!...) 15 tostões por mês. Estes 15 tostões dão bem a medida de quanto o mundo se modificou, evolucionou, de 1912 para cá.

Procurei o quarto. Era pequeno, modestíssimo, como se pode calcular, mas limpo e com luz que lhe vinha dum quintalório, onde medravam couves tronchas e uns craveiros bem tratados. Mas eu tinha apenas dezassete vinténs (já despendera 10 réis na aquisição do jornal…) e não sabia donde me viria o resto. Mentalmente fiz as contas: 15 tostões por mês era meio tostão por dia. Propus à dona da casa pagar-lhe dia a ia. «Como estava a ver, eu saíra da tropa e ainda nem tempo tivera para escrever para a terra…»

Ela, boa mulher de Mangualde, que reforçava o salário do marido, operário numa garagem da Avenida, fazendo caixinhas de cartão para as farmácias, objectou que tal lhe não dava arranjo.

- Bem vê … a gente gosta de receber o dinheirinho todo junto, para ajudar à renda da casa. Antes queria que me pagasse então tudo no fim do mês. Eu cá espero … Não desconfio …

Aceitei a proposta e fiquei, obrigado, por honra e brio, a arranjar os 15 tostões o mais depressa que pudesse.

*

E eis-me agarrado ao mesmo número do «Diário de Notícias», `procura de trabalho. Eu estava disposto a deitar a mão ao primeiro que encontrasse. Sentia-me capaz de ir para uma taberna lavar pratos, contanto que me dessem de comer e uns tostões para a renda do quarto. Quando se está nesta disposição, encontra-se trabalho.

E eu encontrei.

Estava a negacear-me um anúncio que dizia: - «Manteiga. Vendedores precisam-se. Calçada do Combro, número tantos».

Fui lá, julgando que queriam caixeiros. Não era isso. O que pretendiam era vendedores ambulantes, que dessem colocação à manteiga sobrante da venda ao balcão, de si bastante minguada.

Afoitei-me à aventura de vendedor ambulante de «manteiga de Sintra» (era assim que o homem lhe chamava) e já vão ver como dei conta de mim.

O manteigueiro queria depósito ou fiador. Depósito, não o podia dar quem tinha de seu, naquele fim de tarde, dezassete vinténs e a ignorância de onde lhe podia vir mais algum mísero centavo. Fiador, também não não era possível encontrá-lo quem quase não conhecia ninguém em Lisboa.

Contei ao sujeito a minha história – adequada à circunstância, claro está – em duas palavras e rematei:

- É pegar ou largar. Ou me confia a «fazenda» a crédito ou vou procurar outro modo de vida.

Ele franziu o sobrecenho com ar cogitativo e indeciso, concentrou-se na meditação dos riscos da proposta e acabou por se resolver bravamente à passagem deste Rubicon:

- Pois bem! O senhor tem cara de homem sério, mas a verdade é que a gente vê caras e não vê corações. Contudo, sempre lhe entrego a fazenda. Pode ganhar dois tostões por dia, mas tem de vender o mínimo de quatro latas. Cada uma custa 25 centavos. Se não lhe serve assim, dou-lhe meio tostão em cada lata.

Declarei logo preferir a segunda forma, porque não confiava muito na minha aptidão de vendedor e receava que o homem desistisse da cooperação ao cabo de poucos dias de experiência.

Entregou-me ele um cesto de verga, desses de duas tampas presas a um eixo subposto ao arco da pega, e saí para a minha «vida comercial». O homem ficou a coçar o queixo, outra vez de aspecto cogitativo e a resmonear atrás do balcão:

- Nunca o diabo leve mais.

*
Estava vendedor ambulante de manteiga. Mas a quem vender o produto? Eu era e sou a mais completa e decidida negação para o comércio. Todavia fazia-se mister começar…

Na prisão tivera por companheiro D. Tomaz da Câmara, filho do saudoso dramaturgo D. João da Câmara e cadete de cavalaria. Era um rapaz débil, enfermiço, muito inteligente, muito sério e extremamente bondoso. Acusavam-no de tentar, com outros, «derrubar a forma de governo republicana e restaurar a forma de governo monárquico», fórmula usada para todos os autos, que se levantavam aos presos «talassas». Queria o investigador e organizador do auto obter do rapaz a declaração de que conspirava e de quem teriam sido os seus cúmplices. D. Tomaz, de aparência tímida e acanhada, piscando os olhos atrás dos óculos de aro branco, era duma firmeza de ânimo e de carácter inquebrantável. Consentia em responder afirmativamente apenas à primeira parte e recusava-se a dar a menor indicação quanto à segunda.

- O senhor conspirou?
- Sim, senhor.

- Com quem?
- Não digo.

- Fica incomunicável!
- Sim, senhor.

Quando estávamos presos a visita da família ou dos amigos era sempre esperada com ansiedade. As minutos da hora da visita eram o oásis na monotonia daquele deserto moral, que nos parecia a sala 1 ou a sala 2 da Casa de Reclusão da 1ª Divisão Militar. À noite a secretaria comunicava ao D. Tomaz que lhe havia sido levantada a incomunicabilidade. E ele, pressuroso, mandava avisar a mãe, virtuosa senhora, ainda felizmente viva, as irmãs, o tio, o excelente D. Tomaz de Mello Breyner, conde de Mafra, o «Tomaz Mafra», tão estimado por quantos o conheciam. Ficava radiante, à espera da hora da visita. Mas sessenta minutos antes do momento apetecido, surgia o interrogatório:

- O senhor conspirou?
- Sim, senhor.

- Com quem?
- Não digo.

- Está incomunicável!
- Sim, senhor…

As visitas da família, o D. Tomaz, a senhora Condessa de Mafra ou outras pessoas, chegavam, mas não conseguiam ver o rapaz, porque o 2.029 estava outra vez incomunicável…

E isto durou dias seguidos, até que se convenceram não ser possível arrancar nada daquele testaçudo 2.027.

Mas esta divagação desviou-me do meio da narrativa. No próximo artigo se continuará.

CORREIA MARQUES

ESTE NÚMERO FOI VISADO
PELA COMISSÃO DE CENSURA

-----«ACÇÃO»---nº4–15-5-941

quinta-feira, 1 de julho de 2010

MAIS UM POUCO DE FOTOJORNALISMO...



A Igreja Românica de São Pedro de Rates (séc. XII)...





... e o Santo!...

UM POUCO DE FOTOJORNALISMO...




Ao norte de Portugal, há uma aldeia chamada São Pedro de Rates, ou Rates simplesmente... há aí também uma rua, hoje renomeada "Rua Direita", no entanto, já teve o nome de "Rua Jornalista Pedro Correia Marques". Esse nome foi dado em homenagem ao ilustre ratense que nascera naquela aldeia, naquela rua e... nesta casa!


domingo, 20 de junho de 2010

Este blog vai apresentando o grande jornalista Pedro Correia Marques sem uma preocupação em registrar a sua trajetória de maneira cronológica, assim, ao passear escritos sobre o jornalista, pareceu-me interessante postar estes agora:


CORREIA MARQUES - O HOMEM QUE SÓ SABIA ESCREVER

O estilo era o homem e o homem era a sua pena. A pena assídua, quotidiana, diurna e nocturna. Era o homem de um só livro, o homem de um só ofício. A bem dizer, só sabia escrever. Escrever era o seu ofício, o seu "hobby", o seu recreio, a sua respiração, a sua vida. Uma vida toda, desde a primeira hora, experimental, até ao fim. Pode dizer-se que, soldado do bom combate,morreu no seu posto, com a pena na mão. Tirar-lhe a pena sempre fiel ser-lhe-ia, sem dúvida, mais fatal que amputar-lhe um braço. Em suma, vivia da pena, pela pena e para a pena. Como quem recitava um ofício obrigatório, com o breviário nacional e internacional, no coro do jornal, a cada hora o seu labor, laudes, vésperas e completas, matinas de longos nocturnos...
Foi na verdade, uma boa pena ao serviço da boa Imprensa, no bom combate que lhe rendeu, em labores e canseiras, em prosas de todo o modo e feitio, para todas as horas do dia e para todos os dias do ano e para todos os anos da vida.
(...)
Homem de um só caminho, sem torcer nem quebrar, de uma só dedicação, se tivesse ficado pelo seu Minho saudoso, lá teria dado porventura à terra, à lavoura, toda a alma e coração que deu ao jornalismo, fito no seu palmo de terreno, satisfeito na sua quinta, contente com uma ou duas juntas de bois, buscando o refrigério das frondes e latadas, dócil o ouvido ao sino patrício, convivendo familiarmente com o povo da aldeia paterna. Mas não. A Lisboa o destino o trouxe, em anos de porfias que o marcaram para sempre e lhe marcaram o rumo, um rumo seguido sem desvios até ao fim. Tal vida, tal fim."
(Diniz da Luz. Época, 09/08/1972 - Lisboa)

A MORTE DO J0RNALISTA PEDRO CORREIA MARQUES

A notícia do falecimento de Pedro Correia Marques foi conhecida ontem, à tarde, e causou consternação nos meios jornalísticos, onde era conhecido, admirado e respeitado pelas suas invulgares qualidades pessoais e de trablho, por quantos o conheceram e acompanharam a sua brilhantíssima carreira de repórter, crítico literário, conferencista, comentador dos acontecimentos nacionais e cronista internacional.
(...)
(Diário Popular, 09/08/1972 - Lisboa)


FALECEU O JORNALISTA PEDRO CORREIA MARQUES

(...)
Com a sua morte, desaparece uma grande figura de jornalista.
Muito considerado pelos seus pares, o velho profissional da Imprensa usou sempre a sua pena na defesa de sãos princípios e de causas que, esm sua consciência, concidrava como as melhores.
(Diário de Notícias, 09/08/1972 - Lisboa)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

CURSO DE JORNALISMO

A primeira reportagem

Há-de saber a História que o jornalista presente é nado e criado em S. Pedro de Rates, uma aldeia pitoresca da zona meridional da Província Interamnense, ali por onde a geografia administrativa diz ser já província do Douro, mas onde a constituição do solo, a natureza dos produtos e da paisagem, e a feição étnica e antropológica da gente afirmam testaçudamente ser Minho e muito Minho. Dali me levaram menino e moço, para o beneditinos de Singeverga, a-fim-de aprender a arte complicada do ler, escrever e contar e ainda para afeiçoar o espírito em moldes cristãos e bem portugueses. De qual fosse a causa desta levada não interessa à História, nem aos leitores de «Acção».

Em fins de 1909, por circunstâncias também sem interesse para o comum das gentes, achei-me no mundo, só como o espargo no monte, avulso, sem família e quase sem amigos – ante o gravíssimo problema de arranjar a vida como pudesse – honradamente e cristãmente, claro está. Tinha eu 19 anos, muitas ilusões e algumas esperanças.

*

Foi esta a minha primeira reportagem: achar a vida, furar no Mundo, que não me conhecia e que eu não o conhecia. Creiam que esta reportagem é às vezes muito dura e cheia de ansiedades e dificuldades. Compreendi então a verdade daquela palavra do Eclesiastes, que lera e meditara no cenóbio singevergano: Vae solil, quia cum ceciderit non habaet sublevantem se: Ai do homem só, porque, se cair, não achará quem o levante.

*

Verdadeiramente eu não estava só. Se não recorria a ninguém, nem sequer aos meus mestres beneditinos, era um pouco por orgulho e principalmente porque me julgava capaz de romper na vida, tendo apenas a ferramental das noções gerais, que trouxera como bagagem intelectual – Petrus in cunctis et nihil in omnibus.

Não estava pois só, porque estava comigo e com as minha ilusões. Mas no momento, este primeiro passo de reportagem era deveras difícil. E como não tivesse de quê e de quem me valer, resolvi o caso duma forma simples: faltava-me pouco tempo, escassos meses, para entrar nas «sortes». Antecipei-me e apresentei-me à porta da Infantaria nº 20, na sede do regimento, então instalada no Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães. E eis-me soldado.

Eu tomava a vida muito a sério. Ser militar, servir a Pátria e o Rei, era para mim uma coisa grave. Quando me leram os «Deveres Militares» - Todo o militar deve regular o seu procedimento pelos ditames da Religião, da Virtude e da Honra: amar a Pátria, ser fiel ao Rei. – senti-me comovido e investido em funções e deveres muito ponderosos.

*

Galucho era-o, pois, como passo intermédio na vida, para resolver a questão do momento. Estava solucionado um pouso o problema de emprego, antecipado o cumprimento dum tributo à Pátria e conseguido o tempo necessário para viver e, entretanto, filosofar.

*

A «tropa» trouxe-me a Lisboa numa transferência de praças do 20 para o 16. Vim encontrar a guarnição da capital muito trabalhada pela conspiração contra a Monarquia.

A propaganda fazia-se inteligentemente. Não alvejava apenas o regime e o Rei; atingia também os oficiais, que se sabia serem leais e valentes, capazes de oferecer resistência `aventura revolucionária. Havia soldados industriados para cometerem faltas disciplinares, quando esses oficiais estavam de inspecção ou de qualquer outro serviço, de tal guisa, que eles não pudessem deixar de punir as infracções do regulamento. Assim se conseguiu que determinados oficiais, óptimos como oficiais e como homens, fossem odiados pelas praças, que os acusavam de tiranos, déspotas, castigadores por prazer – de maneira a serem alvejados pelos soldados sediciosos, quando rebentasse a revolta.

E a verdade é que por isso foram assassinados o comandante do 16, coronel Celestino da Costa, homem de aprumo e honra, militar disciplinador, sem rigores desnecessários, e o capitão Barros, comandante da 1ª do 1ª, excelente pessoa, bonacheirão, verdadeiramente amigo da sua nobre profissão e dos seus soldados. E se mais assassínios se não cometeram, foi porque não houve ensejo para isso e porque, nesse género de «proezas» se estava então na «infância da arte».

*

Vieram a revolução de 5 de Outubro de 1910 e a proclamação da República.

Não me conformei. Ingenuamente comecei a agregar a mim os soldados que sabia sentirem instintiva e tímida desconfiança ante o regime, que se apresentava perseguidor da religião, que motejava, nos discursos oficiais e nas laudas das suas gazetas, das coisas e das pessoas mais respeitáveis, dos princípios mais venerados. Era eu o confidente das suas dúvidas e o secretário que lhes escrevia as cartas para as mães, para as namoradas.

- Ó cabo escreve-me uma carta para a minha cachopa?

- Vamos lá a saber: como se chama a pequena?

- Maria Antónia … Mas ê cá chamo-lhe Antoneca ..

- E que lhe quer dizer?

- Ora agora é que o cabo me há-de compor o ramalhete. Eu cá arrecebi a carta dela e fiquei munto contente das notícias que mandou. Quanto ao Francisco, o que lhe acontece foi o que sempre afuturê. E depois que ela bem sabe que nunca me esqueço dela e a trago sempre no pensamento.

- Bem. Deixa-me escrever.

E repetia-se a cena do Quien supiera escribir – com muito menos poesia, está bem de ver. Colm os elementos que o lapuz das Beiras ou de Alentejo me dava, enchia as quatro laudas do papel bem atestadinhas em letra miúda, o mais legível que podia. Quando lia a carta ao autor oficial dela, havia sempre a exclamação pasmada:

- Então o cabo conhece a pequena?

Tinha pois certo ascendente sobre a galuchada da companhia. Este aliciamento discreto levou-me à prisão. Na madrugada de 26 de Maio de 1911 fui remetido, sob custódia duma escolta, para a Casa de Reclusão instalada nos casarões do Castelo de S. Jorge, agora demolidos. E lá estive cerca dum ano. Julgado e absolvido por unanimidade, enxotaram-me logo da tropa, onde era suspeito. Certo alferes Ferreira, muito republicano e influente no regimento (era o esbôço, ainda muito impreciso, das futuras checas) ficou espantado ao ver-me outra vez no quartel e ainda mais espantado ao saber que o tribunal me absolvera por unânime consenso.

- Mas nós não te quermos cá!

- Nem eu quero cá ficar! – respondi logo.

E vi-me na rua, licenciado, a continuar a reportagem da procura do modo de vida

CORREIA MARQUES

- «ACÇÃO» --- nº 3 – 8-5-941

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Leia-se no link abaixo um artigo sobre o jornalista Pedro Correia Marques, fica a sugestão para outros pesquisadores que se interessem pelo trabalho do jornalista.

http://www.bocc.ubi.pt/pag/moreira-lucia-pedro-correia-marques.pdf